A relação mais íntima, traiçoeira e definidora de uma mulher é a que ela trava consigo mesma.

(apud Eduardo Giannetti)

Muitas das notas deste diário serão falsas e mentirosas. Acredite.

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terça-feira, 2 de setembro de 2008

Eu cresci, mas nunca fui pequena

Serei sempre uma mulher com tudo que um homem pode temer sem cessar de amá-la.
E é bom que ele saiba que minha crueldade, minha obstinação e minha reserva orgulhosa não excluem a traição,
longe disso.




segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Espelho meu, espelho meu!

Deus criou-me para menina e assim permanecerei,
mesmo que a vida me bata e tire todas as minhas bonecas.

A volta ao estado infantil me é sempre possível.
Meu encanto de criança repousa sobre o fato de que ela – a criança que há em mim – se basta, simplesmente.

Assim, sigo irresistível, na fantasia nostálgica da onipotência infantil que nunca perdi.

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Silêncio

Ou eu observo mal, ou os casais no Cabo não conversam entre si.

As palavras servem tanto para aproximar, quanto o silêncio para afastar.

Aqui, só quem corre risco de falar são as crianças.
Eu também me calo, sou do Cabo de Santo Agostinho e aprendi a ser quieta.

Quietinha.

Não me quero ligar aos outros pra valer.
Só quem fala se expõe à maledicência.

domingo, 17 de agosto de 2008

Nao Tem Solução

Aconteceu um novo amor
Que nao podia acontecer
Nao era hora de amar
Agora o que vou fazer?
Nao tem soluçao
Este novo amor
Um amor a mais
Me tirou a paz
E eu que esperava
Nunca mais amar
Nao sei o que faço
Com esse amor demais.

(Dorival Caymmi e Carlos Guinle)

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Biquíni (Millôr Fernandes)

O biquíni é o triunfo do nada, a vitória da suposição absoluta. Apoiado onde, nunca ninguém vai saber. Vê-se-o sem que exista, admite-se onde não está, é sem ser e só adquire aparência de existir na retórica que o circunda.

O biquíni é a derradeira medida antes da não medida. Padrão moral, portanto, irrecusável. A metade do ano passado, quando já era menos da metade de si próprio, o mínimo que se supunha possível de uma coisa ou de outra qualquer coisa.

Mas sem essa ausência concretizada, sem essa negação tão visível com que se vestem as raparigas em flor, a praia de Ipanema não seria o que é, já que nunca pode ser como já foi.

Biquíni: o mínimo que uma mulher pode usar antes de não usar coisa alguma.

Millôr Fernandes - A Bíblia do Caos, 1994)

sábado, 2 de agosto de 2008

...bocadinho só!

As mulheres aqui no Cabo, quando traem seus maridos, fazem-no por amor, o que as conduz à pior das tragédias: casar-se com seu amante.
Os ex-infelizes maridos, cedo aprendem que "...com qualquer dez mil réis e uma nêga, se faz um vatapá!"
*


*Homenagem à Dorival Caymmi (1914-2008)

Curiosidade

Santo Agostinho (não o acidente geográfico) dizia que "é preciso um mínimo de bens materiais para exercer as virtudes do espírito."
Eu tenho pena dessas pessoas que assisto seu lamentoso ir e vir na rua 55.


Sei como é triste ser pobre, nunca ter tido nada.
Mas será pior do que a angústia do rico, de saber que não adianta ter tudo?

segunda-feira, 28 de julho de 2008

Um terremoto nunca vem sozinho

Aqui no Cabo as mulheres dizem que a vida está cada vez mais insuportável. Mas eu quero ver quem salta primeiro.
Esta vida, me recuso a aceitá-la como tal, mas embora me ache entre ruínas, sou mulher e vou em frente, a reconstruir novos hábitos, a criar pequenas e grandes esperanças.
Sei que não há caminhos fáceis à minha frente, tenho que arriscar, seja qual for a extensão do desastre que se abata sobre mim.
Sei que um terremoto nunca vem sozinho, mas estou preparada.

sábado, 19 de julho de 2008

Deixar o Cabo

Em algum lugar além da rua 55:

- Poderia me dizer, por favor, que caminho devo tomar, para ir embora do Cabo?

- Isso depende muito de para onde queres ir.

- Não me importa muito para onde ir.

- Nesse caso, pouco importa o caminho que sigas.

- Contanto que eu chegue a algum lugar...

- Oh, isso certamente irás conseguir.

(Lewis Carrol - Alice no País das Maravilhas)


domingo, 13 de julho de 2008

Só acredito no Inferno quando estou nele

Quando meu corpo pensa, todo o resto se cala
e minha pele inteira tem uma alma.
Sou uma mulher que renasce sob cada céu onde me curo da dor de amar.
Fazer o quê?
Mentir, mentir sempre.
Com insolente orgulho, eu prego e amo a mentira!



Sou mulher

Todos sabemos que a história da humanidade não é a mesma quando contada pelas mulheres e pelos homens. Os mesmos séculos, as mesmas guerras, os mesmos tempos vividos juntos e, no entanto, com histórias tão diferentes que parecem dois mundos separados. E na verdade foram. E em muitas latitudes ainda continuam a ser.
Laurinda Alves

quinta-feira, 10 de julho de 2008

Licença

Aqui no Cabo, para sermos felizes, moças e mulheres precisamos de autorização de nossos pais e maridos. Nem sempre eles são simpáticos a isso. Certas manhãs, em que acordamos com o sentimento de princesa, percebemos seu olhar de reprovação e a impaciência que provoca nossa alegria. Talvez nos neguem o direito de gozar desta felicidade por sermos, embora honestas, de origem obscura, modestas de nascimento, sem a proteção de algum poder superior.

domingo, 6 de julho de 2008

Prece

Senhor, tende piedade destas meninas-moças das pequenas ruas transversais do
Cabo de Santo Agostinho, que, em seus humildes quartos, sonham
conquistar o mundo .


sábado, 5 de julho de 2008

O sonho de Pao Yu

Tsao Hsue-king (c. 1754)

Pao Yu sonhou que estava em um jardim idêntico ao de sua casa. Será possível, pensou, que haja um jardim idêntico ao meu? Acercaram-se dele algumas donzelas. Pao Yu, atônito, disse a si mesmo: alguém terá donzelas iguais a Hsi-Yen, a Pin-Erh e a todas as de minha casa? Uma das donzelas exclamou: “Aí está Pao Yu. Como terá chegado até aqui?” Pao Yu pensou que o haviam reconhecido. Adiantou-se e disse-lhes: “Estava caminhando; por casualidade cheguei até aqui. Caminhemos um pouco”. As donzelas riram. “Que desatino! Confundimos-te com Pao Yu, nosso amo, porém não és tão garboso como ele.” Eram donzelas de outro Pao Yu. “Queridas irmãs” disse a elas, “eu sou Pao Yu. Quem é vosso amo?” “É Pao Yu”, responderam. “Seus pais lhe deram esse nome, composto dos caracteres Pao (precioso) e Yu (jade), para que sua vida fosse longa e feliz. Quem és tu para usurpar esse nome?” E se foram, rindo.
Pao Yu ficou abatido. “Nunca me trataram tão mal. Por que me detestaram essas donzelas? Existirá, de fato, um outro Pao Yu? Tenho que averiguar.” Movido por esses pensamentos, chegou até um pátio que lhe era familiar. Subiu a escada e entrou em seu quarto. Viu um jovem deitado. Ao lado da cama, rindo, umas mocinhas faziam trabalhos domésticos. O jovem suspirava. Uma donzela lhe disse: “Que sonhas, Pao Yu? Estás aflito?” “Tive um sonho muito esquisito. Sonhei que estava em um jardim e que não me reconhecíeis e me deixáveis só. Eu vos segui até a casa e me encontrei com outro Pao Yu dormindo em minha cama.” Ao ouvir o diálogo, Pao Yu não se conteve e exclamou: “Vim em busca de um Pao Yu; és tu”. O jovem levantou-se e o abraçou, gritando: “Não era um sonho; tu és Pao Yu”. Do jardim uma voz chamou: “Pao Yu!” Os dois Pao Yu estremeceram. O sonhado se foi; o outro dizia: “Volta logo, Pao Yu”. Pao Yu despertou. Sua donzela Hsi-Yen lhe perguntou: “Que sonhavas, Pao Yu? Estás aflito?” “Tive um sonho muito esquisito. Sonhei que estava em um jardim e que não me reconhecíeis...”

sexta-feira, 4 de julho de 2008

Sonho

Se eu um dia

atravessasse o Paraíso

em um sonho,

e me dessem uma flor

como prova de que

eu havia estado ali,

e se ao despertar

encontrasse essa flor

em minha mão...

então o quê?

quinta-feira, 3 de julho de 2008

Fingimento

Dêm-me uma máscara e eu serei sincera.

Nas mulheres do Cabo não reconheço outro gênio que o da mentira. É uma arte doméstica a da dissimulação, do artifício, do fingimento. Como a de saber esperar, recolher as migalhas, reconstruir, recolar e redourar suas pobres vidas.
Aquelas que não mentem são preguiçosas, não se dão sequer ao trabalho de arrumar um pouco a verdade, quanto mais não seja por polidez, ou então para intrigar a vizinhança.
Para mim, a insinceridade é mais uma maneira segura de multiplicar minha personalidade, ser única para cada outro. Com os homens daqui, é sempre preferível a astúcia à autenticidade. Perto de minha arte de fingir, tudo parece imperfeito.

terça-feira, 1 de julho de 2008

A Vida é o Terror (II)

Em relação alguma sou tão cruel como no amor.
Em mim nunca funcionou o sentimento da piedade. Quando é o caso, o que me surge não é a piedade mas o desprezo ou a irritação.
Sei o quanto se sofre quando não se é amado. Mas isso não me comove quando não amo quem me ama.
Só no amor sou intolerante e cruel.
Um homem tudo pode de mim pedir e obter. Exceto que eu o ame, porque meu sentir independe da razão.
Por outro lado, sei que a única possibilidade de ser amada por quem não me ama é esconder que eu o amo. Então não desço, e ele, porque não sobe, tem menos apreço por si, e mais apreço pela amante que sou.
Em todas as situações a compaixão tem um limite. Mas quando deixo de amar de verdade, a compaixão acaba e a repugnância começa.
O jogo do amor é um jogo de forças.




quinta-feira, 26 de junho de 2008

A um inquieto amigo

A Tranquilidade da Alma não se Alcança em Viagens
Pensas que só a ti isso sucedeu; admiras-te, como se fosse um caso raro, de após uma tão grande viagem e uma tão grande variedade de locais visitados não teres conseguido dissipar essa tristeza que te pesa na alma!? Deves é mudar de alma, não de clima. Ainda que atravesses a vastidão do mar, ainda que, como diz o nosso Vergílio, as costas, as cidades desapareçam no horizonte, os teus vícios seguir-te-ão onde quer que tu vás. Do mesmo se queixou um dia alguém a Sócrates: «Porquê admirar-te da inutilidade das tuas viagens,» - foi a resposta, - «se para todo o lado levas a mesma disposição? A causa que te aflige é exactamente a mesma que te leva a partir!» De facto, em que pode ajudar a mudança de local, ou o conhecimento de novas paisagens e cidades? Toda essa agitação carece de sentido. Andares de um lado para o outro não te ajuda em nada, porque andas sempre na tua própria companhia. Tens de alijar o peso que tens na alma; antes disso não há terra alguma que te possa dar prazer! Temos de viver com essa convicção: não nascemos destinados a nenhum lugar particular, a nossa pátria é o mundo inteiro! Quando te tiveres convencido desta verdade, deixará de espantar-te a inutilidade de andares de terra em terra, levando para cada uma o tédio que tinhas à partida. Se te persuadires de que toda a terra te pertence, o primeiro ponto em que parares agradar-te-á de imediato. O que tu fazes agora não é viajar, mas sim andar à deriva, a saltar de um lado para o outro, quando na realidade o que tu pretendes - viver segundo a virtude - podes consegui-lo em qualquer sítio.
(Sêneca - séc. I d.C.)



Arte de amar (Manuel Bandeira)

Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma.
A alma é que estraga o amor.
Só em Deus ela pode encontrar satisfação.
Não noutra alma.
Só em Deus — ou fora do mundo.
As almas são incomunicáveis.

(Manuel Bandeira)


quarta-feira, 25 de junho de 2008

A Vida é o Terror

Da crueldade feminina, o que conhecem os homens?
De pequena, quando minha mãe afirmava que eu era má, isso me deixava mais má. Hoje o que mais me provoca é o espetáculo patético de um homem em posição infantil. Fico atentada, como uma mãe quando um filho homem se joga no chão de um Shopping. Lágrimas são armas de combate exclusivas das mulheres na guerra dos sexos. Um homem não chora, e é bom que não chore em minha cozinha. Se houver uma faca, como não perceber o lugar exato onde melhor enfiá-la?

terça-feira, 24 de junho de 2008

Ah, um soneto!

Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: aqui... além...
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente...
Amar! Amar! E não amar ninguém!

Recordar? Esquecer? Indiferente!
Prender ou desprender? É mal? É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!

Há uma primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!

E se um dia hei-de ser pó, cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder... pra me encontrar...

Florbela Espanca








segunda-feira, 23 de junho de 2008

Domingo

Se alguma vez eu me suicidasse, seria num domingo. É o dia em que inevitavelmente me invade a melancolia.
Aqui no Cabo, quando vamos à igreja, no fim da tarde de domingo, verificamos que ainda há mulheres fiéis aos seus maridos. É fácil identificá-las por seu aspecto infeliz, pelos seus passos tristes no descer da rua 55.
"O que fiz da minha vida?" – isto soa a uma dessas canções muito antigas, que ouço de vizinhas solitárias e abandonadas pelos maridos presentes.
Hoje me sinto vulgar e, pior do que isso, penso que deveria estar acima desta vulgaridade. Sei que tenho em mim condições para alçar vôo, lançar-me em outra vida.
Suporto estes momentos porque sei que alguém me espera, longe, muito longe.
Meu Deus, me dê a coragem de viver os dias e noites vazios da presença dele!








sábado, 21 de junho de 2008

Diálogo com meu Anjo da Guarda (II)

Dorothy:
- Vou para outra terra, vou para outro mar.
Encontrarei uma cidade melhor do que esta.
Até quando minha alma vai permanecer neste marasmo?
Para onde olho, qualquer lugar que meu coração alcança,
Só vejo minha vida em negras ruínas
Onde passei tantos anos, e os destruí e desperdicei.


Anjo:
- Não encontrarás novas terras, nem outros mares.
A cidade irá contigo.
Andarás sem rumo
Pelas mesmas ruas.
Vais envelhecer no mesmo bairro,
Teu cabelo vai embranquecer nas mesmas casas.
Sempre chegarás a esta cidade. Não esperes ir a outro lugar,
Não há barco nem caminho para ti.
Como dissipaste tua vida aqui
Neste pequeno lugar,
arruinaste-a na Terra inteira.

(K. Kaváfis)

Diálogo com meu Anjo da Guarda

Anjo:
- Olhas como quem caminha quando está sozinho.
É para ti que olhas.
Tua penitência será não conhecer o sono feliz.
Quando quiseres dizer tudo o que te encanta no mal e na crueldade,
quando chegar a madrugada dessa tua noite sonora, sentirás minha prudente e fresca mão sobre tua boca, para que teu grito retorne ao palavrar moderado de uma criança que fala alto para se tranquilizar.

Dorothy:
- Eu prefiro ultrapassar a zona pérfida da lógica. Não tenho medo de ninguém, nem de mim mesma. Há muito eu não conheço mais o sono feliz. Estou completamente só, e sei que também caíram um dia todos os Anjos voluptuosos, abatidos. E nada me impede de lançar bem alto minha queixa. Na madrugada eu grito fervorosamente!

Às Minhas Amigas do Cabo

Alegra-me muito sentir que minhas inquietações chegam às minhas mais queridas pessoas. Estou, realmente em busca do conhecimento de mim e do mundo.
Quero ser madura, mas ainda não deixei de adorar catar conchas na areia.
Em cada dia, recém vinda sou e me prolongo como fruto não amadurecido ainda.
Quero ser livre, e com o conhecimento a liberdade deixa de ser um objetivo e passa a ser uma conseqüência.
Sei que cada pessoa tem de libertar apenas a si mesma.

Meu Caminho

Em minha cela sem grades, liberta-me a vida contemplativa, a vida que não tem por objetivo fazer, mas ser.
E não simplesmente ser, mas tornar-me. Para onde vou? Não sei, mas acredito que, descendo a rua 55, aqui perto, me levo a qualquer lugar do mundo.
Moro no Cabo de Santo Agostinho, sim, mas não por muito tempo. Aqui, todas as meninas acabam se parecendo com suas mães. É a nossa tragédia.
Mas eu, ao menos, olho as estrelas.

Destinos

As pessoas que se salvam são as que têm boas lembranças da infância.
Vou deixar o Cabo, sim.
Sei que não seria o que sou se não tivesse nascido neste lugar, mas o que me mantém aqui?
Garotos que têm a tola vaidade de querer ser o primeiro homem de uma moça bonita?
Eu, por minha vez, estou em busca de um outro destino: sonho ser o último romance de um grande homem.

As Moças do Cabo

As moças aqui do Cabo não ousariam contar o que acontece à nossa volta, bem perto, perto demais! O que nos mantém neste lugar, a não ser uma estase que se contenta em nos tornar cada vez mais paralisadas?!
Somos criaturas que não aprendemos nenhuma arte ou ofício, nem sequer o de gozar a vida. Aborrecemo-nos das melhores amigas, depois de estarmos com elas por meia hora.
As coisas e pessoas que mais amamos só têm o seu pleno valor quando simplesmente sonhadas.