A relação mais íntima, traiçoeira e definidora de uma mulher é a que ela trava consigo mesma.

(apud Eduardo Giannetti)

Muitas das notas deste diário serão falsas e mentirosas. Acredite.

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quinta-feira, 26 de junho de 2008

A um inquieto amigo

A Tranquilidade da Alma não se Alcança em Viagens
Pensas que só a ti isso sucedeu; admiras-te, como se fosse um caso raro, de após uma tão grande viagem e uma tão grande variedade de locais visitados não teres conseguido dissipar essa tristeza que te pesa na alma!? Deves é mudar de alma, não de clima. Ainda que atravesses a vastidão do mar, ainda que, como diz o nosso Vergílio, as costas, as cidades desapareçam no horizonte, os teus vícios seguir-te-ão onde quer que tu vás. Do mesmo se queixou um dia alguém a Sócrates: «Porquê admirar-te da inutilidade das tuas viagens,» - foi a resposta, - «se para todo o lado levas a mesma disposição? A causa que te aflige é exactamente a mesma que te leva a partir!» De facto, em que pode ajudar a mudança de local, ou o conhecimento de novas paisagens e cidades? Toda essa agitação carece de sentido. Andares de um lado para o outro não te ajuda em nada, porque andas sempre na tua própria companhia. Tens de alijar o peso que tens na alma; antes disso não há terra alguma que te possa dar prazer! Temos de viver com essa convicção: não nascemos destinados a nenhum lugar particular, a nossa pátria é o mundo inteiro! Quando te tiveres convencido desta verdade, deixará de espantar-te a inutilidade de andares de terra em terra, levando para cada uma o tédio que tinhas à partida. Se te persuadires de que toda a terra te pertence, o primeiro ponto em que parares agradar-te-á de imediato. O que tu fazes agora não é viajar, mas sim andar à deriva, a saltar de um lado para o outro, quando na realidade o que tu pretendes - viver segundo a virtude - podes consegui-lo em qualquer sítio.
(Sêneca - séc. I d.C.)



Arte de amar (Manuel Bandeira)

Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma.
A alma é que estraga o amor.
Só em Deus ela pode encontrar satisfação.
Não noutra alma.
Só em Deus — ou fora do mundo.
As almas são incomunicáveis.

(Manuel Bandeira)


quarta-feira, 25 de junho de 2008

A Vida é o Terror

Da crueldade feminina, o que conhecem os homens?
De pequena, quando minha mãe afirmava que eu era má, isso me deixava mais má. Hoje o que mais me provoca é o espetáculo patético de um homem em posição infantil. Fico atentada, como uma mãe quando um filho homem se joga no chão de um Shopping. Lágrimas são armas de combate exclusivas das mulheres na guerra dos sexos. Um homem não chora, e é bom que não chore em minha cozinha. Se houver uma faca, como não perceber o lugar exato onde melhor enfiá-la?

terça-feira, 24 de junho de 2008

Ah, um soneto!

Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: aqui... além...
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente...
Amar! Amar! E não amar ninguém!

Recordar? Esquecer? Indiferente!
Prender ou desprender? É mal? É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!

Há uma primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!

E se um dia hei-de ser pó, cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder... pra me encontrar...

Florbela Espanca








segunda-feira, 23 de junho de 2008

Domingo

Se alguma vez eu me suicidasse, seria num domingo. É o dia em que inevitavelmente me invade a melancolia.
Aqui no Cabo, quando vamos à igreja, no fim da tarde de domingo, verificamos que ainda há mulheres fiéis aos seus maridos. É fácil identificá-las por seu aspecto infeliz, pelos seus passos tristes no descer da rua 55.
"O que fiz da minha vida?" – isto soa a uma dessas canções muito antigas, que ouço de vizinhas solitárias e abandonadas pelos maridos presentes.
Hoje me sinto vulgar e, pior do que isso, penso que deveria estar acima desta vulgaridade. Sei que tenho em mim condições para alçar vôo, lançar-me em outra vida.
Suporto estes momentos porque sei que alguém me espera, longe, muito longe.
Meu Deus, me dê a coragem de viver os dias e noites vazios da presença dele!








sábado, 21 de junho de 2008

Diálogo com meu Anjo da Guarda (II)

Dorothy:
- Vou para outra terra, vou para outro mar.
Encontrarei uma cidade melhor do que esta.
Até quando minha alma vai permanecer neste marasmo?
Para onde olho, qualquer lugar que meu coração alcança,
Só vejo minha vida em negras ruínas
Onde passei tantos anos, e os destruí e desperdicei.


Anjo:
- Não encontrarás novas terras, nem outros mares.
A cidade irá contigo.
Andarás sem rumo
Pelas mesmas ruas.
Vais envelhecer no mesmo bairro,
Teu cabelo vai embranquecer nas mesmas casas.
Sempre chegarás a esta cidade. Não esperes ir a outro lugar,
Não há barco nem caminho para ti.
Como dissipaste tua vida aqui
Neste pequeno lugar,
arruinaste-a na Terra inteira.

(K. Kaváfis)

Diálogo com meu Anjo da Guarda

Anjo:
- Olhas como quem caminha quando está sozinho.
É para ti que olhas.
Tua penitência será não conhecer o sono feliz.
Quando quiseres dizer tudo o que te encanta no mal e na crueldade,
quando chegar a madrugada dessa tua noite sonora, sentirás minha prudente e fresca mão sobre tua boca, para que teu grito retorne ao palavrar moderado de uma criança que fala alto para se tranquilizar.

Dorothy:
- Eu prefiro ultrapassar a zona pérfida da lógica. Não tenho medo de ninguém, nem de mim mesma. Há muito eu não conheço mais o sono feliz. Estou completamente só, e sei que também caíram um dia todos os Anjos voluptuosos, abatidos. E nada me impede de lançar bem alto minha queixa. Na madrugada eu grito fervorosamente!

Às Minhas Amigas do Cabo

Alegra-me muito sentir que minhas inquietações chegam às minhas mais queridas pessoas. Estou, realmente em busca do conhecimento de mim e do mundo.
Quero ser madura, mas ainda não deixei de adorar catar conchas na areia.
Em cada dia, recém vinda sou e me prolongo como fruto não amadurecido ainda.
Quero ser livre, e com o conhecimento a liberdade deixa de ser um objetivo e passa a ser uma conseqüência.
Sei que cada pessoa tem de libertar apenas a si mesma.

Meu Caminho

Em minha cela sem grades, liberta-me a vida contemplativa, a vida que não tem por objetivo fazer, mas ser.
E não simplesmente ser, mas tornar-me. Para onde vou? Não sei, mas acredito que, descendo a rua 55, aqui perto, me levo a qualquer lugar do mundo.
Moro no Cabo de Santo Agostinho, sim, mas não por muito tempo. Aqui, todas as meninas acabam se parecendo com suas mães. É a nossa tragédia.
Mas eu, ao menos, olho as estrelas.

Destinos

As pessoas que se salvam são as que têm boas lembranças da infância.
Vou deixar o Cabo, sim.
Sei que não seria o que sou se não tivesse nascido neste lugar, mas o que me mantém aqui?
Garotos que têm a tola vaidade de querer ser o primeiro homem de uma moça bonita?
Eu, por minha vez, estou em busca de um outro destino: sonho ser o último romance de um grande homem.

As Moças do Cabo

As moças aqui do Cabo não ousariam contar o que acontece à nossa volta, bem perto, perto demais! O que nos mantém neste lugar, a não ser uma estase que se contenta em nos tornar cada vez mais paralisadas?!
Somos criaturas que não aprendemos nenhuma arte ou ofício, nem sequer o de gozar a vida. Aborrecemo-nos das melhores amigas, depois de estarmos com elas por meia hora.
As coisas e pessoas que mais amamos só têm o seu pleno valor quando simplesmente sonhadas.