A relação mais íntima, traiçoeira e definidora de uma mulher é a que ela trava consigo mesma.

(apud Eduardo Giannetti)

Muitas das notas deste diário serão falsas e mentirosas. Acredite.

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sábado, 5 de julho de 2008

O sonho de Pao Yu

Tsao Hsue-king (c. 1754)

Pao Yu sonhou que estava em um jardim idêntico ao de sua casa. Será possível, pensou, que haja um jardim idêntico ao meu? Acercaram-se dele algumas donzelas. Pao Yu, atônito, disse a si mesmo: alguém terá donzelas iguais a Hsi-Yen, a Pin-Erh e a todas as de minha casa? Uma das donzelas exclamou: “Aí está Pao Yu. Como terá chegado até aqui?” Pao Yu pensou que o haviam reconhecido. Adiantou-se e disse-lhes: “Estava caminhando; por casualidade cheguei até aqui. Caminhemos um pouco”. As donzelas riram. “Que desatino! Confundimos-te com Pao Yu, nosso amo, porém não és tão garboso como ele.” Eram donzelas de outro Pao Yu. “Queridas irmãs” disse a elas, “eu sou Pao Yu. Quem é vosso amo?” “É Pao Yu”, responderam. “Seus pais lhe deram esse nome, composto dos caracteres Pao (precioso) e Yu (jade), para que sua vida fosse longa e feliz. Quem és tu para usurpar esse nome?” E se foram, rindo.
Pao Yu ficou abatido. “Nunca me trataram tão mal. Por que me detestaram essas donzelas? Existirá, de fato, um outro Pao Yu? Tenho que averiguar.” Movido por esses pensamentos, chegou até um pátio que lhe era familiar. Subiu a escada e entrou em seu quarto. Viu um jovem deitado. Ao lado da cama, rindo, umas mocinhas faziam trabalhos domésticos. O jovem suspirava. Uma donzela lhe disse: “Que sonhas, Pao Yu? Estás aflito?” “Tive um sonho muito esquisito. Sonhei que estava em um jardim e que não me reconhecíeis e me deixáveis só. Eu vos segui até a casa e me encontrei com outro Pao Yu dormindo em minha cama.” Ao ouvir o diálogo, Pao Yu não se conteve e exclamou: “Vim em busca de um Pao Yu; és tu”. O jovem levantou-se e o abraçou, gritando: “Não era um sonho; tu és Pao Yu”. Do jardim uma voz chamou: “Pao Yu!” Os dois Pao Yu estremeceram. O sonhado se foi; o outro dizia: “Volta logo, Pao Yu”. Pao Yu despertou. Sua donzela Hsi-Yen lhe perguntou: “Que sonhavas, Pao Yu? Estás aflito?” “Tive um sonho muito esquisito. Sonhei que estava em um jardim e que não me reconhecíeis...”

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