A relação mais íntima, traiçoeira e definidora de uma mulher é a que ela trava consigo mesma.

(apud Eduardo Giannetti)

Muitas das notas deste diário serão falsas e mentirosas. Acredite.

*****************************************************************************

segunda-feira, 28 de julho de 2008

Um terremoto nunca vem sozinho

Aqui no Cabo as mulheres dizem que a vida está cada vez mais insuportável. Mas eu quero ver quem salta primeiro.
Esta vida, me recuso a aceitá-la como tal, mas embora me ache entre ruínas, sou mulher e vou em frente, a reconstruir novos hábitos, a criar pequenas e grandes esperanças.
Sei que não há caminhos fáceis à minha frente, tenho que arriscar, seja qual for a extensão do desastre que se abata sobre mim.
Sei que um terremoto nunca vem sozinho, mas estou preparada.

sábado, 19 de julho de 2008

Deixar o Cabo

Em algum lugar além da rua 55:

- Poderia me dizer, por favor, que caminho devo tomar, para ir embora do Cabo?

- Isso depende muito de para onde queres ir.

- Não me importa muito para onde ir.

- Nesse caso, pouco importa o caminho que sigas.

- Contanto que eu chegue a algum lugar...

- Oh, isso certamente irás conseguir.

(Lewis Carrol - Alice no País das Maravilhas)


domingo, 13 de julho de 2008

Só acredito no Inferno quando estou nele

Quando meu corpo pensa, todo o resto se cala
e minha pele inteira tem uma alma.
Sou uma mulher que renasce sob cada céu onde me curo da dor de amar.
Fazer o quê?
Mentir, mentir sempre.
Com insolente orgulho, eu prego e amo a mentira!



Sou mulher

Todos sabemos que a história da humanidade não é a mesma quando contada pelas mulheres e pelos homens. Os mesmos séculos, as mesmas guerras, os mesmos tempos vividos juntos e, no entanto, com histórias tão diferentes que parecem dois mundos separados. E na verdade foram. E em muitas latitudes ainda continuam a ser.
Laurinda Alves

quinta-feira, 10 de julho de 2008

Licença

Aqui no Cabo, para sermos felizes, moças e mulheres precisamos de autorização de nossos pais e maridos. Nem sempre eles são simpáticos a isso. Certas manhãs, em que acordamos com o sentimento de princesa, percebemos seu olhar de reprovação e a impaciência que provoca nossa alegria. Talvez nos neguem o direito de gozar desta felicidade por sermos, embora honestas, de origem obscura, modestas de nascimento, sem a proteção de algum poder superior.

domingo, 6 de julho de 2008

Prece

Senhor, tende piedade destas meninas-moças das pequenas ruas transversais do
Cabo de Santo Agostinho, que, em seus humildes quartos, sonham
conquistar o mundo .


sábado, 5 de julho de 2008

O sonho de Pao Yu

Tsao Hsue-king (c. 1754)

Pao Yu sonhou que estava em um jardim idêntico ao de sua casa. Será possível, pensou, que haja um jardim idêntico ao meu? Acercaram-se dele algumas donzelas. Pao Yu, atônito, disse a si mesmo: alguém terá donzelas iguais a Hsi-Yen, a Pin-Erh e a todas as de minha casa? Uma das donzelas exclamou: “Aí está Pao Yu. Como terá chegado até aqui?” Pao Yu pensou que o haviam reconhecido. Adiantou-se e disse-lhes: “Estava caminhando; por casualidade cheguei até aqui. Caminhemos um pouco”. As donzelas riram. “Que desatino! Confundimos-te com Pao Yu, nosso amo, porém não és tão garboso como ele.” Eram donzelas de outro Pao Yu. “Queridas irmãs” disse a elas, “eu sou Pao Yu. Quem é vosso amo?” “É Pao Yu”, responderam. “Seus pais lhe deram esse nome, composto dos caracteres Pao (precioso) e Yu (jade), para que sua vida fosse longa e feliz. Quem és tu para usurpar esse nome?” E se foram, rindo.
Pao Yu ficou abatido. “Nunca me trataram tão mal. Por que me detestaram essas donzelas? Existirá, de fato, um outro Pao Yu? Tenho que averiguar.” Movido por esses pensamentos, chegou até um pátio que lhe era familiar. Subiu a escada e entrou em seu quarto. Viu um jovem deitado. Ao lado da cama, rindo, umas mocinhas faziam trabalhos domésticos. O jovem suspirava. Uma donzela lhe disse: “Que sonhas, Pao Yu? Estás aflito?” “Tive um sonho muito esquisito. Sonhei que estava em um jardim e que não me reconhecíeis e me deixáveis só. Eu vos segui até a casa e me encontrei com outro Pao Yu dormindo em minha cama.” Ao ouvir o diálogo, Pao Yu não se conteve e exclamou: “Vim em busca de um Pao Yu; és tu”. O jovem levantou-se e o abraçou, gritando: “Não era um sonho; tu és Pao Yu”. Do jardim uma voz chamou: “Pao Yu!” Os dois Pao Yu estremeceram. O sonhado se foi; o outro dizia: “Volta logo, Pao Yu”. Pao Yu despertou. Sua donzela Hsi-Yen lhe perguntou: “Que sonhavas, Pao Yu? Estás aflito?” “Tive um sonho muito esquisito. Sonhei que estava em um jardim e que não me reconhecíeis...”

sexta-feira, 4 de julho de 2008

Sonho

Se eu um dia

atravessasse o Paraíso

em um sonho,

e me dessem uma flor

como prova de que

eu havia estado ali,

e se ao despertar

encontrasse essa flor

em minha mão...

então o quê?

quinta-feira, 3 de julho de 2008

Fingimento

Dêm-me uma máscara e eu serei sincera.

Nas mulheres do Cabo não reconheço outro gênio que o da mentira. É uma arte doméstica a da dissimulação, do artifício, do fingimento. Como a de saber esperar, recolher as migalhas, reconstruir, recolar e redourar suas pobres vidas.
Aquelas que não mentem são preguiçosas, não se dão sequer ao trabalho de arrumar um pouco a verdade, quanto mais não seja por polidez, ou então para intrigar a vizinhança.
Para mim, a insinceridade é mais uma maneira segura de multiplicar minha personalidade, ser única para cada outro. Com os homens daqui, é sempre preferível a astúcia à autenticidade. Perto de minha arte de fingir, tudo parece imperfeito.

terça-feira, 1 de julho de 2008

A Vida é o Terror (II)

Em relação alguma sou tão cruel como no amor.
Em mim nunca funcionou o sentimento da piedade. Quando é o caso, o que me surge não é a piedade mas o desprezo ou a irritação.
Sei o quanto se sofre quando não se é amado. Mas isso não me comove quando não amo quem me ama.
Só no amor sou intolerante e cruel.
Um homem tudo pode de mim pedir e obter. Exceto que eu o ame, porque meu sentir independe da razão.
Por outro lado, sei que a única possibilidade de ser amada por quem não me ama é esconder que eu o amo. Então não desço, e ele, porque não sobe, tem menos apreço por si, e mais apreço pela amante que sou.
Em todas as situações a compaixão tem um limite. Mas quando deixo de amar de verdade, a compaixão acaba e a repugnância começa.
O jogo do amor é um jogo de forças.